quinta-feira, 29 de outubro de 2009

"Guerrilheiros do Araguaia estão vivos"

Em livro, coronel revela apelido e prenome de envolvidos

Vasconcelo Quadros

Brasília

Anticomunista radical e oficial que mais se envolveu em combate na repressão às organizações de esquerda envolvidas na guerrilha rural durante os anos de chumbo, o coronel da reserva Lício Augusto Ribeiro Maciel garante que alguns guerrilheiros listados como desaparecidos durante a Guerrilha do Araguaia escaparam do cerco e estariam vivos hoje, com identidade falsa, morando em grandes centros ou na própria Amazônia. "Sem dúvida, repito, muitos guerrilheiros devem ter conseguido sair da área e estão por aí, escondidos, ou camuflados, com receio de serem justiçados", diz o coronel, num dos trechos do livro Guerrilha do Araguaia: relato de um combatente, que ele lança esta semana no Rio.

Entre os prováveis sobreviventes, Lício revela apenas o pré-nome e apelido de um dos guerrilheiros: Jurandir Bichento, com quem tentou manter contato nos últimos tempos. "Sei que ele está vivo", diz o oficial, que relaciona o possível sobrevivente ao lado de outro ex-guerrilheiro, o médico João Carlos Wisnesky, conhecido por Paulo Paquetá, atualmente com consultório no Rio, que Lício diz ter sido acusado injustamente de traidor pelo comandante da guerrilha, Maurício Grabóis, e pelo PCdoB.

O oficial diz que Paquetá, responsável pelo recrutamento de um numeroso grupo de estudantes, era um dos guerrilheiros mais bem preparados e justamente por isso conseguiu furar o cerco militar e escapar, sem nunca ter sido apanhado pela polícia.

No balanço do confronto feito por Lício, só aparece o destino de 20 guerrilheiros que foram presos ou deixaram a área no final dos combates, mas os informes apontam que teriam sobrevivido 28. Faltam oito, sobre os quais nem o PCdoB sabe o destino, apesar de listar os nomes de 59 militantes mortos no confronto. Em janeiro de 1974, depois que os militares desfecharam o ataque decisivo para a derrota da guerrilha – ocorrido no Natal de 1973 e que resultou na morte de Grabóis e de outros oito guerrilheiros, entre eles os integrantes da comissão militar – Lício diz que ainda restavam vivos 30 guerrilheiros.


Roteiro de vestígios

O oficial confirma no livro declarações dadas ao JB em maio do ano passado pelo ex-ministro Jarbas Passarinho, afirmando que entre 1973 e 1974, a pedido do general Antônio Bandeira, ex-chefe do Comando Militar do Planalto, empregou no Ministério da Educação e Cultura cinco guerrilheiros arrependidos que haviam sido presos no Araguaia. Bem aproveitado, o relato de Lício pode auxiliar a força-tarefa montada pelo Ministério da Defesa a organizar um roteiro dos locais onde podem ser encontrados vestígios de restos mortais dos guerrilheiros desaparecidos. O próprio Lício sustenta que três militantes que ele matou – André Grabóis, João Gualberto Calatroni e Antônio Alfredo de Lima, no dia 13 de outubro de 1973 – foram enterrados numa propriedade rural que ele chama de Sítio da Oneida, próxima a Caçador, o local do confronto, em São Geraldo do Araguaia.

O oficial acha que o Exército "não terá peito" – como fez com o tenente José Vargas Jiménez, outro combatente que rompeu o silêncio – para chamá-lo a depor. Sugere, no entanto, que a força-tarefa organize um acervo de informações e se desloque para Marabá para montar um banco de dados ouvindo as pessoas que ainda estão vivas e podem indicar com precisão locais. No livro, o militar diz que estão vivos, lúcidos e saudáveis cerca de 50 militares que estiveram na linha de frente dos combates. No texto ele exorta seu antigo subordinado, o ex-capitão Sebastião Rodrigues de Moura, o Curió, a dizer o que sabe: "Vamos lá, Curió, está na hora de falar...". Curió é o maior arquivo vivo do conflito.


[ 31/03/2008 ] 02:01

Fonte: Jornal do brasil

Link:

http://jbonline.terra.com.br/editorias/pais/papel/2008/03/31/pais20080331005.html

2 comentários:

  1. SÍTIO CALDEIRÃO, O ARAGUAIA DO CEARÁ: UM GENOCÍDIO ESQUECIDO PELO PODER PÚBLICO!

    No CEARÁ, para quem não sabe, houve também um crime idêntico ao do “Araguaia”, contudo em piores proporções, foi o MASSACRE praticado por forças do Exército e da Polícia Militar do Ceará no ano de 1937, contra a comunidade de camponeses católicos do Sítio da Santa Cruz do Deserto ou Sítio Caldeirão, que tinha como líder religioso o beato JOSÉ LOURENÇO, seguidor do padre Cícero Romão Batista.

    A ação criminosa deu-se inicialmente através de bombardeio aéreo, e depois, no solo, os militares usando armas diversas, como fuzis, revólveres, pistolas, facas e facões, assassinaram mulheres, crianças, adolescentes, idosos, doentes e todo o ser vivo que estivesse ao alcance de suas armas, agindo como feras enlouquecidas, como se ao mesmo tempo, fossem juízes e algozes.

    Como o crime praticado pelo Exército e pela Polícia Militar do Ceará foi de LESA HUMANIDADE / GENOCÍDIO / CRIME CONTRA A HUMANIDADE é considerado IMPRESCRITÍVEL pela legislação brasileira bem como pelos Acordos e Convenções internacionais, e por isso a SOS - DIREITOS HUMANOS, ONG com sede em Fortaleza - Ceará, ajuizou no ano de 2008 uma Ação Civil Pública na Justiça Federal contra a União Federal e o Estado do Ceará, requerendo que sejam obrigados a informar a localização exata da COVA COLETIVA onde esconderam os corpos dos camponeses católicos assassinados na ação militar de 1937.

    Vale lembrar que a Universidade Regional do Cariri – URCA, se tivesse interesse, utilizaria sua tecnologia avançada e pessoal qualificado, para, através da Pró-Reitoria de Pós Graduação e Pesquisa – PRPGP, do Grupo de Pesquisa Chapada do Araripe – GPCA e do Laboratório de Pesquisa Paleontológica – LPPU encontrar a cova coletiva, uma vez que pelas informações populares, ela estaria situada em algum lugar da MATA DOS CAVALOS, em cima da Serra do Araripe.

    Frisa-se também que a Universidade Federal do Ceará – UFC, no início de 2009 enviou pessoal para auxiliar nas buscas dos restos dos corpos dos guerrilheiros mortos no ARAGUAIA, esquecendo-se de procurar na CHAPADA DO ARRARIPE, interior do Ceará, uma COVA COM 1000 camponeses.

    Este descaso para com as vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO seria pelo fato delas não terem o mesmo valor que os achados arqueológicos do Cariri, ou discriminação por serem “meros nordestinos católicos”?

    Diante disto aproveitamos a oportunidade para pedir o apoio de todos os cidadãos de bem nessa luta, no sentido de divulgar o CRIME PERMANENTE praticado contra os habitantes do SÍTIO CALDEIRÃO, bem como, o direito das vítimas serem encontradas e enterradas com dignidade, para que não fiquem para sempre esquecidas em alguma cova coletiva na CHAPADA DO ARARIPE.


    Dr. OTONIEL AJALA DOURADO
    OAB/CE 9288 – (85) 8613.1197
    Presidente da SOS - DIREITOS HUMANOS
    www.sosdireitoshumanos.org.br

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  2. Corrigindo os erros:

    "Dr Otoniel:

    Concordo com o Sr com relação ao episódio descrito, ocorrido no Ceará.
    Vejo, contudo o Episódio Araguaia de forma distinta.
    A Convençao de Genebra protege apenas aqueles que combatem de uma forma aberta, franca, fardados. Falos dos integrantes regulares dos Exércitos do Mundo.
    A Guerra de Guerrilha é uma guerra suja, muito suja. Combate-se um adversário sem rosto...
    A posição mais dura das FAs Brasileiras ocorreu qdo estas verificaram que estavam morrendo inocentes(guardas de bancos, seguranças, sentinelas dos quartéis, enfim pessoas q. não tinham nada a ver com a estória...)
    Particularmente, sou contrário a atrocidades. Mas não devemos desconhecer que os guerrilheiros brasileiros esperavam o quê? Atirar e receber flores de volta?
    Meus cumprimentos ao senhor, acompanhado de minha admiração.

    Daniel Caetano, o Autor do Blog

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